A nossa sociedade parece viver uma corrida contra o relógio. Ao mesmo tempo em que o mercado de trabalho exige mais qualificação e disponibilidade, nossa família emite sinais de que precisa de atenção e dedicação. Conciliar os dois parece ser uma missão impossível e, no meio disso, sentimos que basicamente conseguimos pagar contas.

Muitos profissionais não medem esforços para se dedicar ao trabalho e acabam ficando tempo demais no expediente. Sem perceber, os anos vão passando e os momentos em família tornam-se raros.

Sabemos que trabalhar é uma necessidade, mas todo excesso traz, como consequência, um desequilíbrio na vida pessoal — e isso é uma questão de escolha. Hoje, vamos refletir sobre o que é viver, afinal a vida é mais do que apenas pagar contas, não é mesmo?
 

A cartilha da insanidade    

Muitas pessoas entendem e defendem que trabalhar é uma função que deveria ser exercida 24 horas por dia. Há quem considere absurda a quantidade de horas que o dia tem, alegando ser impossível realizar atividades profissionais tão intensas em “tão pouco” tempo.

Quem tem essa crença parece vir diretamente de outro mundo, onde a escravidão impera. Dedicar-se ao trabalho de maneira total, ampla e irrestrita é um comportamento que precisa ser analisado com bastante atenção.

Como não há tempo para dedicar à família, você já imaginou como os filhos dessas pessoas estão crescendo? Eles já estão sendo preparados para acreditar que vence na vida quem se ocupa o dia inteiro com compromissos, estudos e… Trabalho.

Tempo para ficar em silêncio ou contemplar a névoa que vem se aproximando? Jamais! Isso é desperdício de tempo! A cartilha que essas pessoas seguem as convenceu de que trabalhar é o único modo de ter sanidade.

Para elas, insanidade significa levar os filhos para comer um doce depois da aula de inglês, fazer terapia para compreender os conflitos ou descansar no fim de semana. Insano, nesse modo de ver o mundo, significa viver.


A reflexão que precisamos fazer

Uma vez que o trabalho está no centro de nossas vidas, devemos refletir se ele contribui para o enobrecimento ou o empobrecimento de nossa existência. Para ajudar nessa reflexão, proponho que você avalie como a rotina profissional se encaixa no contexto do seu dia. Ela faz parte ou exerce um poder dominante sobre ele?

O trabalho pode criar uma rotina cruel. O executivo Mohamed El-Erian, ex-CEO da companhia de gestão de investimento Pimco, deixou o cargo em 2014 graças, em boa parte, a uma carta que recebeu de sua filha, que estava com 10 anos.

A menina fez uma lista em que apontava 22 acontecimentos marcantes de sua vida, os quais o pai havia perdido por causa do trabalho. Entre os momentos citados pela garota, estavam o primeiro dia de escola, o primeiro jogo de futebol e muitos recitais.

O pedido de demissão de El-Erian, então guru de investimento, chocou o mundo financeiro. Ele contou à imprensa um dos motivos que o levou a isso. O sinal de alerta veio quando pediu que sua filha escovasse os dentes e ela não o obedeceu. Ela pediu um minuto, foi ao quarto e voltou com a lista.

Para cada item listado pela garota, havia a justificativa do pai: reuniões, viagens, telefonemas urgentes e tarefas a cumprir. Foi aí que ele se deu conta de que não estava passando tempo suficiente com ela.

Mohamed El-Erian vivia para pagar contas. Essa situação o fez refletir sobre a importância que o trabalho tem. A partir disso, ele optou por trabalhar em lugares que exigissem menos viagens e permitissem mais flexibilidade de horário.
 

O desejo de viver intensamente

Vida e trabalho são uma coisa só. Para viver intensamente, você não precisa deixar de trabalhar ou permitir que essa parte do seu dia domine a rotina. Até alguns anos atrás, os profissionais recém-formados não pensavam duas vezes antes aceitar oportunidades de trabalho em cidadezinhas do interior, distantes de suas famílias.

Eles enxergavam a chance de construir uma carreira sólida e entendiam que esse era o preço a ser pago para crescer profissionalmente. Esses jovens viviam para trabalhar.

No ambiente de trabalho, não existia a figura do líder. O chefe mandava e desmandava — e a sorte era de quem conseguia ter um que fosse amigável e compreensível. Se não fosse, era o “sacrifício necessário” para alcançar o sucesso.

Viver para trabalhar transmite a falsa ideia de que, no futuro, os profissionais serão recompensados. O fato é que a sociedade mudou e as pessoas passaram a ver que deixavam de lado uma série de prazeres, inclusive o convívio com a família e consigo mesmas.
 

O trabalho não deve ser uma obrigação

Nós estamos diante de um mundo novo, no qual os indivíduos fazem escolhas conscientes para suas vidas. Nele, o trabalho não é encarado como obrigação, pois faz parte do contexto.

Quantas pessoas que fazem parte do seu convívio já optaram por trabalhar com algo que permita uma maior flexibilidade de tempo e proporcione prazer? Você pode se dedicar ao trabalho, mas não precisa passar o dia inteiro focado nele. Olhe ao redor e veja que a vida não se resume somente a isso.

Quando éramos mais jovens, desejávamos deixar um legado para os nossos filhos e o mundo. Estávamos cheios de sonhos e vontade de realizá-los. Onde foi parar essa pessoa? Em que momento da vida ela deixou de lado os desejos e passou a agir mecanicamente?

Você é a única responsável por suas escolhas, por calar as vozes externas que insistem em lhe dizer o que é certo ou errado. Esse momento de reflexão serve para avaliar quem está direcionando a sua vida: você ou os outros? O legado que você pretende deixar é seu ou de outro indivíduo?

Trabalhar deve ser algo que nos desperte prazer! Precisamos acordar felizes todos os dias, sabendo que temos uma missão para cumprir. Quando o nosso foco passa a ser somente o de pagar contas, os cartões de crédito e o financiamento do carro ou imóvel, a vida parece perder o sentido.

Reflita sobre o que é viver, afinal a vida é mais do que apenas pagar contas. E aproveite para seguir nossas redes sociais e ter acesso a outros conteúdos como este — estamos no Facebook, no YouTube e no SoundCloud!

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